Poemas de 2026

FEVEREIRO

- pessoas importantes

Eu tirei pessoas importantes
da minha vida.
Eu sei que dei mancada,
errei e me arrependo.

Mas não há como voltar atrás.
Não existe máquina do tempo,
e muito menos pedido de desculpa
ou perdão
que faça alguém voltar.

Ainda assim,
eu sinto muito.
De verdade.

- a saudade me consumiu

Eu tô com saudades pra carai de você, sabia?
Faria de tudo pra voltar atrás,
mas não tenho como fazer isso.

O ego consumiu, né?

O que resta é esperar:
ou o universo nos unir,
ou ele diminuir a minha saudade.



MARÇO

- penso em sumir

Às vezes penso em sumir.

Penso o quanto seria bom
se eu não tivesse pensado
em me matar
com menos de quinze anos.

O quanto seria bom
se eu não tivesse medo
de viver
a vida como ela é.

Às vezes eu prefiro morrer
do que lidar com o futuro,
do que lidar com pessoas.

Mas, ao mesmo tempo,
eu sei que tenho sonhos
a serem realizados.

Sonhos de criança.
Sonhos de quando me reconheci,
de fato.
De quando aceitei
quem eu sou
de verdade.

E mesmo assim, às vezes,
a vontade de morrer
vence.

No fim, eu não faço nada
para que quando menos esperar
eu não esteja entre vós.

Pelas minhas crianças
que ainda não tenho.

Pela criança que vi nascer
e hoje é o meu tudo.

E principalmente
pela minha criança interior.

- sempre me saboto…

Eu odeio quando está
minimamente
dando certo
na minha vida amorosa.

Eu sempre me saboto.
Sempre é assim.

Está tudo bem,
ou pelo menos parece.

Mas invento de achar
que ela não está gostando de mim,
que ela nunca gostou,
de fato.

Eu começo a duvidar
do meu brilho,
da minha graça,
do que eu tenho a oferecer.

Não me vejo
como alguém interessante.
Não me vejo
como alguém que sabe
como tocar outra mulher
e fazê-la ficar.

E não falo só de pele,
de desejo,
de atração física.

Falo de presença.

De ser escolha.
De ser casa.
De ser alguém
que ela queira ter
na própria vida.

- me namorar

Você quer me namorar
mas é pela beleza,
não por quem eu sou.

Eu quero namorar sabendo
que a pessoa conhece
todos os meus defeitos.

Sabendo que eu vou sumir,
sabendo que eu sou grossa.

Sabendo cada parte do meu interior:
cada caco,
cada ferida,
cada caixinha fechada.

O exterior é o de menos.
É só sorrir, fazer maquiagem
e pronto — perfeita.

Mas eu não quero ser perfeita.
Quero que me amem
pelo que eu tenho a oferecer,
não pela minha beleza.

- amaria

Não posso mudar você
para eu te amar.

Não posso simplesmente
mudar quem você é
para caber na minha vida.

Se eu fizesse isso, estaria idealizando
uma pessoa, amando alguém
que eu inventei,
e não você.

Eu te amaria, sim,
com todos os seus defeitos.
Amaria, com certeza, todas
as suas escolhas.
E amaria também
todas as suas manias.

Porque amar não é moldar,
não é ajustar bordas
até caber no meu mundo.

Amar é abrir espaço.

- escrever cartas

Eu gosto de escrever cartas
e nunca entregá-las.

Sei que estou sendo emocionada,
emocionada sozinha.

Sofro sozinha,
sem ninguém saber.
Amo sozinha,
para ninguém falar nada.

Escrevi várias e várias cartas,
mas nunca entreguei.

Que tipo de cartas?
De amor. Porque todas
as cartas de amor
são ridículas.

Amo escrever cartas ridículas.
Elas me fazem ser ridícula
por nunca entregá-las.

- te machucar

Eu tenho medo de
acabar te machucando.
Eu não me perdoaria
se eu te machucasse.

Você é uma pessoa especial.
Sei que me proporcionaria
muitas coisas boas.
Por isso eu não me perdoaria.

Sim, eu mesma me saboto.
Sim, eu saboto antes de acontecer.

Mas mal posso esperar
para morrer de amor de novo.

- minha presença

Não se acostume com a minha presença.
Eu vou sumir, eu sempre sumo.
E vou me odiar por isso,
como sempre.

Eu me isolo sem perceber,
te ignoro sem perceber,
me machuco sem perceber…
e, sem perceber,
te machuco também.

Então, por favor,
não se acostume com a minha presença.



ABRIL

- “amar é deixar ir”

“Amar é deixar ir.”

Não.
Amar não é deixar ir.
É tudo, menos deixar ir.

Como vou deixar ir
a mulher que eu amo?
A mulher por quem eu daria a minha vida?

A mulher que me mostrou
que o amor não é uma tremenda confusão,
mas algo calmo, leve…

Que me fez perceber
que eu não sou difícil de lidar,
mesmo ouvindo, todos os dias,
que eu sou.

Eu não vou deixar o amor ir embora.

Ainda tenho que te dar
um campo inteiro de girassóis.
Tenho que te mostrar
uma noite estrelada,
e não estou falando da obra de Van Gogh…
embora possa ser também,
se a gente organizar uma viagem.

Mas, na verdade,
eu tô falando de nós duas
vendo a cidade do alto de um prédio.

E não,
não vamos terminar depois disso.

Porque eu não vou deixar
a mulher da minha vida ir embora
só porque alguém disse
“amar é deixar ir.”

- o coração no chão

E, do nada, você me mostrou
Que não é preciso desconfiar.
O amor é assim:
Fácil para quem sabe dar.

O chão não precisa tremer,
Nem a realidade parecer
Uma tremenda confusão.

Aquela confusão que te faz
Perder a esperança no amor.

Mas você… você me fez acreditar
No amor novamente.
Naquele amor que mantém
O coração no chão,
E não perdido no vazio.

Ter o coração no chão
Não é peso, não é vazio.
É leve, é completo.

Não machuca,
Não me faz querer fugir.

E, pela primeira vez,
Me faz querer ficar.

Tô me deixando levar…
E esse caminho
Tá me levando até você.

- eu?

Eu?
Assim não tem graça…

Uma pessoa sem curiosidade
é só alguém que já desistiu da vida.

E eu não desisti.

Carrego perguntas nos pensamentos,
Admiração nos olhos,
Amor no coração,
Vontades nas pontas dos dedos,
Mito, vontades no corpo inteiro.

Sinto impulso de conhecer o mundo,
Ser insignificante perto da natureza.

Portanto, continuo.
Curiosa.
Viva.

- a dor de uma perda

Não sei o que é mais doído
A dor de um tiro no peito
Ou a dor de uma perda.

O tiro atravessa, rasga
o corpo de uma vez só.
É rápido, mal dá pra saber
o que de fato aconteceu.

Mas a perda…
Ela não tem fim.
Tem só começo.

E o fim?
Não existe.

Ela fica.
Existe em cada detalhe,
nos lugares e, principalmente,
na memória de quem ficou.

- resumindo…

A poesia é tudo o que podemos
ver, sentir, ouvir.

Seus olhos são poesia pra mim,
dois refletores que brilham
mais que as estrelas.

Meu amor por você é poesia pra você?
Porque eu sinto o seu por mim,
e ele é poesia pra mim.

Eu escuto músicas sobre o amor,
até as mais clichês me lembram você,
e, por isso, também são poesia.

Resumindo:
você é a poesia mais linda que já conheci,
e eu não estou disposta a te perder.

- de fato, eu dormir

"Seu olho tá inchado!"
"Eu dormir!"

Sim, eu dormir, de fato.
Mas, no fundo, queria ter dito
que eu não dormir de cansaço,
mas sim porque, se eu não dormisse,
minha cabeça ia explodir.

Explodir de tanta angústia,
de tanta dor.