Poemas de 2026

JANEIRO

- uma frase

“Que coisa feia”
disse a pessoa,
olhando dois homens
dando um selinho.

Não é feio.
Não é pecado, porra.

Eu não entendo
o que tanto incomoda
ver duas pessoas
se amando.

Deus não vai nos punir
por amar.
Mas talvez puna
cada um pelos
seus preconceitos,
pelos seus próprios pecados.

Porque amor não é pecado.

Pedofilia é.
Violência é.
Ódio é.
E mesmo assim,
isso passa batido,
porque Deus “perdoou”.

Enquanto nós, LGBT+,
precisamos ouvir o tempo todo:
“Renúncia.
Deus só vai perdoar
quando você renunciar.”
Renunciar ao quê?
Ao amor?
À existência?
A quem somos?

Se isso é fé,
por que dói tanto?

- porta fechada

Eu desligo a cabeça dos problemas
quando tô ocupada com algo.
É como se eu fechasse a porta
e só o que me ocupa importasse.

Isso não é saudável, eu sei.
Mas foi a forma que encontrei
de fugir dos problemas,
de fugir de mim mesma.

Mas quando a porta se abre,
os problemas voltam.
E talvez — só talvez —
eu ainda não esteja pronta.

Talvez eu ainda carregue
coisas mal resolvidas
pela vida.

Não falo só de amor.

Falo de laços,
de gente que ficou,
de gente que eu deixei
sem perceber.

No fim,
eu me coloco sempre ocupada
com alguma coisa,
só pra não ter que lidar
com meus problemas.

- passou várias vezes

Eu não sei se em algum momento
passou na minha cabeça
ter algo com você —
claramente passou —,
mas não vou admitir.

Fizeram questão de lembrar
que tenho que saber
se a menina que tô conversando,
ou querendo algo,
é assumida.
Uma coisa que provavelmente não é.

Então não tem como nós.
Temos algo que iria agradar
só um lado:
o seu.

Não me leve a mal.
Eu só não tô afim
de entrar em um armário
preto, branco e cinza
novamente.

- controlar

Controlar.
Controlar.
Controlar.

Mas você realmente
consegue controlar?

Provavelmente não.
Eu também não consigo.
Ninguém consegue.

Você não controla
os seus sentimentos.

Você não tem controle
com aquilo que você
não pode controlar.

Então não se preocupe
em tentar controlar.
Busque alternativas
para aquilo
que ainda pode ser feito.

- só consigo

Interessante como consigo
escrever sobre um amor puro,
mas não consigo viver um.

Não porque me machucaram —
isso também —, mas porque
não consigo aceitar
que posso viver um amor puro.

Um amor escrito por Djavan,
por exemplo.
Na minha cabeça,
é impossível eu viver isso.

Poderia passar horas citando
artistas e mais artistas.

Viver um amor exagerado,
como o Cazuza descreveu
na música dele.

- paz e caos

A paz me assusta
muito mais do que o caos.

Eu estou acostumada ao caos:
faculdade,
casa,
relacionamento.

Então, quando vejo paz
em um desses lugares,
eu tento sabotar.
Me sabotar.

Preciso que alguém me ensine
a ficar,
a não fugir de mim mesma.

E, principalmente,
o que é paz.

- muitos "talvez"

Talvez eu me apaixone
por você.
Talvez eu queira algo a mais
com você.

São muitos talvez
e poucas certezas.

Mas e se…
o talvez
for uma certeza
que eu não quero admitir?

Talvez seja isso.
Com certeza é isso.

Um dia,
você e eu
descobrimos isso.

- imaginei

Imaginei nós duas,
escutando Anavitória,
enquanto você tá deitada
no meu colo,
eu fazendo cafuné
e lendo um livro sáfico.

Mas rapidamente me distraio,
vejo que você está dormindo
e fico admirando, pensando
o quão grande foi a sorte
de eu te ter comigo.

- "louca"

Eu pareço louca.
E eu sou louca.

Mas eu nunca te machucaria.
Nunca seria seca falando
algo sério com você,
ou não ligaria para
os seus sentimentos.

Mas você, pelo visto...

Ainda será atualizado até o final do mês.