Poemas de 2025

JULHO

- ausência

Eu entro pela porta da casa de vocês e não consigo atravessar a sala sem sentir uma angústia enorme por não ver uma sentada na ponta do sofá dizendo: “Já comeu? Vai comer pão com manteiga.” E, no fim das contas, nem sempre tinha pão, mas isso nunca foi o mais importante. A outra estaria na cozinha, fazendo alguma coisa. Se fosse na hora do almoço, era o melhor arroz que eu já comi. Se fosse à noite, era bolo. Todo sábado tinha bolo.

A angústia é saber que aquela casa nunca mais vai ser a mesma. Era uma casa cheia de carinho e, principalmente, de amor. Faz tempo que eu não sei o que é ter o amor de alguém assim, sabia?

Eu sei que me amam, mas eu não sinto esse amor. E talvez seja porque, no fundo, faz tempo que eu também não amo ninguém. Eu sinto falta de me sentir acolhida em uma casa. A minha casa não é o meu lar.

Meu lar era ir comprar pão quentinho às cinco da tarde e voltar comendo um no caminho. Era aquele quintal que parecia maior que o mundo. Meu lar era estar em paz, rodeada de pessoas que eu amava.

Às vezes eu me pergunto quando vou me sentir em um lar de novo. Talvez um dia. Talvez. E, se eu não amar ninguém da forma mais leve e bonita que eu imagino, se eu não me sentir amada assim ou não encontrar um lugar para chamar de lar, ainda me resta a minha espiritualidade — querendo apenas o meu bem.

- sumida

Oi… me desculpa por ser assim. Eu sumo, não respondo, ignoro. Eu sei que isso é chato — eu também acho. Às vezes chego a passar mal só por estar falando com alguém, e isso me cansa.

Eu não sei lidar com o que sinto. Não sei lidar com a ansiedade, com a depressão… nem comigo mesma. Tem dias em que acordo querendo morrer. Penso muito nessa possibilidade e me assusto com a frequência desses pensamentos.

Às vezes eu me pergunto qual é o sentido de continuar aqui me sentindo mal quase todos os dias e ainda não conseguir pedir ajuda. Quem ajudaria? Essa pergunta ecoa na minha cabeça e a resposta parece sempre a mesma: ninguém.

E, mesmo que alguém ajudasse, eu não pediria. Primeiro porque eu não sei pedir ajuda. Segundo porque, mesmo que soubesse, ainda teria medo. Medo de acharem que é drama. Medo de parecer que estou querendo atenção.

Então eu sumo. Me afasto antes que percebam o quanto estou mal. Na verdade, às vezes eu queria sumir até de mim. Tem momentos em que odeio sentir meu próprio corpo, até a sensação dos meus órgãos se mexendo me incomoda.

É como se eu estivesse presa dentro de mim mesma, sem saber como sair — e, ao mesmo tempo, sem saber como pedir que alguém abra a porta.

- pedido de ajuda

Eu não sei pedir ajuda. Já falei isso antes. E, na verdade, quando eu tentei, ninguém ouviu — ou talvez tenham ouvido, mas ninguém olhou nos meus olhos. Porque os olhos sempre gritam antes da boca. Eles pedem socorro primeiro.

Os olhos são os primeiros a mudar. Perdem o brilho, ficam fundos, distantes. Carregam um cansaço que não é físico. Ficam vazios, quase como um peixe morto, olhando sem realmente ver.

Eu não pedi ajuda quando mais precisei. Aprendi a resolver meus problemas sozinha. Aprendi a me calar, a me organizar por dentro, a me reconstruir sem que ninguém percebesse o quanto eu estava quebrada.

Quando entro em estado depressivo, eu mesma me puxo de volta. Sozinha. Já fiz isso uma vez. Demorou um, dois, quase três anos para conseguir sair completamente — mas eu saí. Sem ajuda de ninguém. E por ter saído uma vez, eu aprendi que consigo sair de novo. Mesmo sem pedir ajuda.

- não esqueço

"Às vezes, eu quero chorar
mas o dia nasce e esqueço."

Eu não esqueço,
só a lágrima não sai,
me esforço para não chorar.
Eu não tenho tempo para chorar,
tenho coisas para resolver.

Mas um dia nasce
e minha vontade de chorar aumenta,
e não esqueço
como o ontem me machucou,
como as pessoas me machucaram
e o principal,
como eu me machuquei.