Eu entro pela porta da casa de vocês, mas eu não consigo entrar e
não sentir uma angústia grande por não ver uma sentada na ponta do
sofá falando:
“Já comeu? Vai comer pão com manteiga.”
E, no final das contas, nem sabia se realmente tinha pão.
E a outra, na cozinha, fazendo alguma comida — se fosse na hora do
almoço, estava fazendo o melhor arroz que eu já comi; e, se fosse na
janta, bolo. Todo sábado era bolo.
A angústia é porque eu sei que aquela casa não vai ser a mesma
coisa, uma casa cheia de carinho e, principalmente, de amor. Faz
tempo que eu não sei o que é ter o amor de alguém, sabia?
Eu sei que me amam, mas não sinto esse amor, porque, no final, eu
não amo ninguém. Faz tempo que não amo ninguém.
Eu sinto falta de me sentir acolhida em uma casa. A minha casa não é
meu lar.
Meu lar... era ir comprar pão quentinho às 17h e voltar para casa
comendo um deles pela rua. Era ficar naquele quintal (o quintal que
era muito maior que o mundo, se duvidar).
Meu lar era onde eu estava em paz, rodeada de pessoas que eu
amava.
Quando vou me sentir em um lar novamente?
Talvez... talvez um dia.
Eu tenho a minha espiritualidade querendo só meu bem. Eu acho que é
isso que importa.
Se eu acabar não amando ninguém da forma mais leve, linda,
e eu não me sentir amada igual, ou não encontrar meu lar,
eu tenho a minha espiritualidade.