Poemas de 2025

DEZEMBRO

- vitrola

A agulha da vitrola
ainda não toca o disco
enquanto falamos de
outros assuntos.

Mas…
quando falamos de nós
a agulha toca o disco
e começa a tocar
a nossa música.

Aquela que, só de escutar,
lembra de nós,
ou que, ao nos ver,
faz lembrar dela.

A música começa:
“A índia com colar”

E o tempo para
só para nós.
A música toca mais devagar,
a letra é nossa;
cada pausa diz mais
do que qualquer palavra solta.

A vitrola toca baixo,
não é nova,
mas é nossa.

E enquanto a disco
gira sobre o agulha,
entendemos que há
coisas que só existem
quando somos duas
ouvindo o mesmo som.

- sumida

Eu não sumo
porque quero.
Eu não tô confusa.
Eu "não" quero ter
"nada" com você.

Eu só tenho medo
de me apaixonar de novo
e sofrer novamente.

Eu não consigo
ser tão emocionada
logo de cara.

Não é desinteresse.
É cuidado.
É medo.

Eu sinto muito
quando amo.
E não quero amar
sozinha outra vez.

Então eu amo nada.
Não demonstro nada.
Não vou ter pressa.
E no final,
talvez eu te perca
por você não saber
ter paciência comigo.

E tudo bem.

Porque, apesar de tudo,
o que eu mais quero
é estar ao seu lado, amor.

- meu aniversário

Não quero comemorar meu aniversário.
Na verdade, eu quero,
mas sem ela não é a mesma coisa.

Sei que não posso parar de comemorar
só pelo fato de ela não estar mais aqui.

Mas talvez, de respeitarem o meu espaço,
fizeram uma festa,
fizeram o que eu menos queria:
comemorar sem ela.

Então, desde aquele dia em diante,
eu não consigo sentir
a mesma alegria de comemoração.

Eu sinto,
mas por alguns momentos
quero chorar,
pedir que ela estivesse ali,
naquele momento,
comigo.

Mas acho que, no fim,
ninguém me entende.

Ninguém sabe a importância dela
na minha vida
e vão mandar eu superar algo
que, na época,
não me deram espaço.

E como se supera o luto?
Como conseguir superar um luto
perto do seu aniversário?

- mudou a estação

Só mudou a estação,
mas a música
continua sendo nossa.

Espero que ninguém
me dedique ela.

Eu não consigo escutar
sem lembrar de você,
de nós.

Apesar de tudo,
continua sendo nossa.
Continua me afetando.

Eu me pergunto se,
depois de tudo,
seu mundo ainda
é melhor
desde quando cheguei.

E se ainda existe
um lugar pra mim.

Porque sinto falta
do que era.
Eu sentia tanta confiança
em você.

Ainda sinto, na verdade.

E percebi que talvez
a gente possa
voltar ao início de tudo.

- não se odeie

Não odeie a sua ausência.
Eu entendo a sua ausência,
quase perfeitamente.

Não odeio quando você não consegue explicar.
E não se culpe quando
o mundo não para por você,
ou quando você não consegue
acompanhar o ritmo dele.

Você teme perder as pessoas,
mas, na verdade,
são elas que temem perder você.
Ninguém te substitui,
porque você faz parte da vida delas.

Odiamos sentir a sua falta.
E dói ainda mais
quando ficamos preocupados com você
e você não aparece.

Nós não odiamos você por ser desse jeito.
Não odiamos você por nada.
Tente, com calma, encontrar uma solução
para não se sentir assim,
mas nunca se odeie
por não conseguir mudar de imediato.

E, mesmo assim, nós te amamos:
por cada ausência
e por cada vez
que você está conosco.

- o amor me chamou

Sim, Tim Bernardes,
o amor está me chamando
mais uma vez.

Não sei se eu vou.
Eu quero ir…
mas não estou tentando.

O coração diz sim.
A mente diz não.

E eu digo os dois,
porque eu quero,
mas não consigo.

Eu tenho medo
que você suma.

Então eu sumo primeiro.

Mas eu não posso
fugir do amor,
não pra sempre.

Só até alguém entender
que eu não vou ser
emocionada de primeira.

Talvez já seja tarde,
eu demoro,
mas sinto escondida.

- escrevo para você

Eu queria escrever sobre você,
mas não quero que pareça
que eu gosto de você.

Eu não gosto de você.

Mas não seria tão difícil
gostar.

Eu poderia dar mil e um motivos
pra explicar por que
não seria difícil.

Mas não vou.

Da última vez que falei de você,
que foi igual à primeira,
disseram que eu gostava.

Você acredita?

Enfim, eu não posso
gostar de você.
E não posso demonstrar isso.

Mas como faz isso
se, quando eu gosto
de alguma menina,
eu simplesmente
não sei esconder?

- em outra vida

Que, em outra vida amorosa,
o amor ganhe estrutura
a partir de tudo o que é libertador.

Andar de mãos dadas,
toques sutis,
e que não sejam vistos
como fetiche.

Amor entre duas mulheres,
amor entre dois homens
não é errado,
é certo.

A sociedade só não está
preparada,
mas deveria estar preparada.

Não é porque estou tendo
toque físico com ela
que estou cometendo um crime.

Eu estaria cometendo um
se não estivesse sendo eu mesma.

Mas, felizmente, estou sendo.
Então, o resto que se foda.
Não vou deixar de ser eu
para ser aceita por ninguém.

- só um colo resolve

Eu preciso sentar em um colo,
e chorar até eu tirar todo o peso
que tô sentindo ultimamente.

Desabafar, se eu conseguir
colocar em palavras tudo
o que tá me afetando.

Minha mãe, medo da vida,
medo de perder pessoas,
tanto para a morte,
quanto para o próprio viver.

Medo de não ser suficiente,
nem sequer para mim mesma.

Acho que isso já está sendo um desabafo,
mas queria verbalizar,
me expressar melhor.

Mas isso é tudo o que eu consigo escrevendo.
Se eu falasse, ia sair:
“não preciso de ajuda, sei me virar”.

Mas sabe? No fundo,
sou apenas uma menina
que não sabe como pedir ajuda
e, quando oferecem, recusa,
não por orgulho, mas por medo.

- sorrir

É só colocar um sorriso
na cara e sorrir, né?

Então, tá.
Lá vamos nós...
fingir que nada
está acontecendo,
fingir que o mundo
não está acabando
com você.

Fingir que as próprias
pessoas não te decepcionaram.

Fingir que não doeu tanto,
que não foi tão profundo assim,
para a ausência não pesar
quando o silêncio chega.

Fingir que o peito aguenta,
que o coração não acelera,
não se destrói todinho.

Fingir coragem e força,
quando tudo o que eu quero
é um colo para descarregar
todo o choro que carrego.

- uma parede

Não quero beijar uma parede.
Elas são frias demais para mim.

Quero sentir o calor da faísca,
o início de algo muito maior,
mas sem pressa
para virar incêndio.

Quero o olhar antes do toque.
Quero apenas um amor puro,
sem ser apenas
“um nada”.

Não quero beijar uma parede.
Não sinto essas coisas com ela.

Para eu beijar uma parede,
teria que sentir algo.
Mas se eu sentir algo,
já não é mais parede,
é faísca.

E a faísca
é o início do meu amor
por alguma menina.

- ponto de vista

Cada uma tem o seu ponto de vista.
Existem três tipos de histórias:
a minha,
a sua
e a verdade.

O meu ponto de vista
é completamente diferente do seu,
e tá tudo bem.

Nós paramos de nos falar:
você por um motivo,
eu por outro.

Por isso, não existe
a errada ou a certa,
existe o que cada uma enxerga.

A verdade existe entre a gente,
tentando não ser distorcida,
mas ela dói.

Então, a gente conta
através do ponto de vista
de cada uma.

- virou um quase algo

Eu não sei mais o que eu sinto,
nem o que eu quero com você,
nem o que eu quero para nós.

Mas, ao mesmo tempo,
sei exatamente o que sinto,
o que eu quero com você
e o que eu quero para nós.

Estou em plena confusão.

Só resta saber
o que exatamente você quer,
o que você sente
e o que deseja para você.

E, às vezes, me pego
escutando Anavitória,
lembrando de você:

“O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário
e ninguém reparou...”

- o que é o amor?

Eu não sei amar.
Eu nunca cheguei
a amar de verdade.

Mas eu sei escrever
sobre o amor.
Então, juram que
eu sei o que é amor.

Quando o silêncio chega,
pergunto o que é o amor,
se já me amaram,
se já amei alguma menina.

Quando digo que tô amando,
eu realmente tô amando?
Me sinto perdida, mas finjo
que eu sei o que tô sentindo.

Eu não sei amar.
eu nunca cheguei
amar de verdade.
Ou será que já amei?

- MPB

Eu vivo pelo MPB.

Eu respiro, penso,
acordo, durmo
e sempre um MPB
tá no meio.

É meio engraçado
porque eu sinto paz,
conforto,
e sinto que nenhum outro tipo
de música consegue transmitir
exatamente
os meus sentimentos
pelas coisas.

O meu olho brilha,
lacrimeja se doer.

Mas no fim,
só um MPB
poderá me salvar
do Vecna.

- saudades

Odeio sentir demais.
Odeio sentir falta das pessoas
que saíram da minha vida.
Odeio sonhar com certas pessoas.

Mas amo cada lembrança
que tive com elas:
cada toque,
cada música dedicada,
cada olhar que compartilhamos.

Vivo de lembranças
que nunca irão se repetir.
Então choro até não
aguentar mais chorar.

Jurei que não iria escrever
para elas, para vocês…
Mas olha que hipócrita:
estou escrevendo.
É a única solução
para aguentar a falta que sinto.

- despedindo

Quando você sabe
que está se despedindo,
aí você tenta o máximo
pra que as pessoas
ao seu redor fiquem felizes.

Você se faz mais presente,
você acaba não sumindo…

Mas eu sei,
você sabe,
nós sabemos
que isso tudo é uma fachada
pra ninguém perceber
o quanto eu estou mal.

Mas eu sei que tô partindo.
Eu sempre sei
quando tô prestes
a fazer alguma merda.

- virada de ano

Se me virem chorando
na virada do ano,
me deixem lá
ou só venham me abraçar.

Estarei chorando
de alívio,
pelos antes queridos
e, principalmente,
pelos acontecimentos
do ano anterior.

Ah, e o mais importante:
por eu não ter desistido
de mim mesma.

O alívio vem disso.
Os antes queridos, da saudade.
E os acontecimentos
vêm dos arrependimentos.

- escrevo

Tudo o que eu escrevo
sobre o amor é só uma ilusão.

Mas sei que posso amar outra vez.
Sei que quero amar outra vez.

Sabe como eu sei disso tudo?

Quando olho para você,
quando estou prestes a te beijar,
ou simplesmente
quando estou perto de você.

Esse poema não é ilusão,
é só um fato que tá comigo
a um tempo.

E você
não saberá
que é para você.

- não vamos se iludir

Não adianta a gente esperar
por algo que não vai dar em nada.
Então, estarei só aceitando o que foi dito.

Antes só aceitar isso
do que esperar por algo
que nunca irá acontecer
e acabar se machucando.

Ter isso na cabeça evita
decepções com amigos,
familiares e, principalmente,
amorosos.

Porque criar expectativas
dói quando não há reciprocidade
e faz o coração sofrer
em um silêncio
por algo que só você quis.

- no claro, no escuro

“Mas você vive sorrindo.”

Eu sei. Mas é para fingir
que estou bem
enquanto choro,
sozinha e calada,
no escuro.

No claro, eu sorrio.
E no escuro, eu choro.

Isso me define como pessoa.

Talvez eu volte a ser feliz.
Eu quero ser mais fácil,
mas sou alguém
completamente complicada.

- cabelo

Cortar o cabelo para
algumas pessoas,
é só mais um corte.

Mas, para mim,
é libertar de coisas
que me fez mal
enquanto eu ainda estava
com aquele cabelo.

O corte te trará novas lembranças,
e te dando para novas oportunidades

Fora que você acaba
se conhecendo melhor.

Ao todo, cortar o cabelo
é sim libertador.

- espiritualidade

Que meus guias
continuem me protegendo.
Que os orixás
continuem me dando todo apoio.

Que Exu abra os meus caminhos.
Que Pombogira me dê um amor puro.
Que Seu Zé tire da minha vida
as pessoas que não valem nada.

Que eu acredite neles
mesmo quando não acredito em mim.

Que eu seja amparada no escuro
e fortalecida no claro.

Que tudo seja conforme
a vontade deles.

- pensei errado

Eu sou a que sempre
escreve para os outros,
para quem gosto.

Eu sou a poeta
que tá escrevendo isso.

Será que já escreveram
para mim e eu não sei?

Na minha cabeça, é um não
tão certeiro e sincero.

Ainda assim,
O poema
sou
eu.

- um abraço

Eu pensei que você me odiava

Mas você me abraçou.
Um abraço igual ao início?
Não.

Um abraço que me fez perceber
Que, apesar de tudo,
Ainda sinto falta.

Falta de algo
Que não devia ter acabado.

Não deveria, mas não fiz
Nada para não acabar
Onde estamos hoje.

- saudades de algumas

Eu sinto tanta saudade de vocês,
tanta que só faço chorar.
Tanta que chorei na frente de amigos.

Eu sei que faz tempo
e eu deveria ter ido atrás
quando eu pude,
quando estava no início
de tudo, e não agora.

Mas vocês só estão sendo o motivo
para eu não assumir o real motivo:
que odeio o dia de amanhã, porque eu fiz questão
de fazer eu mesma odiar o meu aniversário.

- uma dança calma

O amor é com uma dança calma,
Com trilha sonora de fundo,
enquanto o casal aproveita
a melodia
e dançando no ritmo.

Arisco a dizer
que é como balé.

Tem os passos fáceis
e passos difíceis,
como em qualquer
relacionamento.