Sabe quando tudo que você quer é arrancar o próprio coração porque
ele só sabe doer?
Eu queria arrancá-lo para ver se a saudade de você vai embora, para
ver se essa vontade de desaparecer um dia se cala. Mas se eu
arrancar, eu morro. Então eu precisaria de um transplante. Só que,
se for de criança, eu não quero. Corações de criança são puros,
inocentes, limpos demais, eles pertencem a outras crianças.
Eu preciso de um coração de adulto. Um que já tenha perdido a
inocência, que não seja mais tão puro, mas que ainda esteja saudável
o bastante pra continuar batendo. Porque, apesar de tudo, eu ainda
quero viver... por mais um tempo.
Vou acendendo a vela nos quatro cantos da parede, só para ver você
pegando fogo enquanto vou tomando o seu chá, decifrando cada canto
do seu corpo como versos, estrofe por estrofe, igual a uma
poesia.
Cada vez mais, ficando viciante como tomar café, te beijando,
explorando cada parte do seu corpo, me fazendo querer cada vez mais,
como a primeira vez que provei morango: doce no começo e azedinho,
que faz querer um pouco mais e mais.
Eu acho que você virou rotina na minha cama, como seu cheiro ficou
em mim, nos momentos que estamos nos beijando no delírio lento,
escondidas em um beco, na esquina de casa, porque não aguentamos
esperar chegar em casa.